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Rebeldes com uma Causa: Como o Legado do Glam Rock Ainda é Sentido 50 Anos Depois

  • Writer: Sofia R. Willcox
    Sofia R. Willcox
  • 1 day ago
  • 7 min read

O glam rock nasceu na Inglaterra dos anos 1970. Em resumo, foi um movimento definido por músicos homens usando roupas flamboyant e femininas, maquiagem e penteados dramáticos. Muitas vezes incluindo plataformas e glitter. enquanto as músicas mulheres frequentemente adotavam trajes tradicionalmente masculinos.


O movimento provocou novas discussões sobre gênero e androginia, abrindo caminho para movimentos futuros como o Punk e o New Romanticism, além de moldar concepções contemporâneas de masculinidade, feminilidade e sexualidade. Sua influência atravessou o Atlântico, chegando a artistas como Alice Cooper e Lou Reed nos Estados Unidos e até deixando sua marca no Brasil.


O glam rock é filho dos motins de Stonewall de 1969 e do Summer of Love; neto de Little Richard e Chuck Berry. Os motins foram uma reação a uma batida policial no Stonewall Inn em Nova York, evento amplamente considerado um marco no movimento de direitos LGBTQ+.


O glam rock emergiu nos anos 1970 e ganhou força com o concerto de David Bowie e The Hype no Roundhouse, em Londres, onde se apresentaram com os trajes extravagantes que logo se tornariam sinônimos da estética do gênero.


Um ano depois, em 11 de março de 1971, o T. Rex apareceu no popular programa de TV Top of the Pops, apresentando Hot Love, enquanto o vocalista Marc Bolan usava lágrimas de glitter sob os olhos. Slade, a banda de maior sucesso comercial desse período, também abraçou totalmente a imagem glam rock.




Essas subversões dentro do glam rock ajudaram a cultivar um terreno fértil para indivíduos LGBTQ+. O movimento desempenhou um papel vital na promoção de visibilidade, aceitação e empoderamento. Ao desafiar normas heteronormativas, celebrar a diversidade e fornecer uma plataforma para expressão e representação queer, o glam rock abriu caminho para maior aceitação e compreensão dentro da sociedade.


A teatralidade, extravagância e androginia do glam rock ressoaram profundamente com indivíduos LGBTQ+, que encontraram empoderamento e liberdade na rejeição do gênero tradicional e na celebração da fluidez do movimento.


Artistas como Freddie Mercury e Brian Eno borraram as linhas entre identidades masculinas e femininas por meio de escolhas de moda, personas no palco e maquiagem.


As letras e temas do glam rock frequentemente exploravam assuntos tabus relacionados à sexualidade, identidade e autoexpressão. Canções como Starman, de Bowie, e 20th Century Boy, de T. Rex, transmitiam mensagens de libertação sexual e não conformismo, ressoando profundamente com ouvintes LGBTQ+ que encontravam conforto e validação na música.


Além disso, a atmosfera inclusiva e acolhedora dos shows e clubes de glam rock forneceu aos indivíduos LGBTQ+ espaços onde podiam se expressar sem medo de julgamento ou perseguição. Esses locais tornaram-se centros vitais da cultura e comunidade LGBTQ+, promovendo senso de pertencimento e solidariedade entre os fãs do gênero.




David Bowie: Camaleão Britânico

David Bowie estreou no início dos anos 1960, absorvendo uma ampla gama de influências do rock 'n' roll. No entanto, ganhou atenção significativa com o lançamento de seu álbum de estreia, David Bowie, em 1967.


O álbum trouxe a icônica Space Oddity, que se tornou seu primeiro hit. Na década seguinte, ele abraçou completamente seu alter ego Ziggy Stardust, com o lançamento de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars em 1972, consolidando seu status como figura central do glam rock.


Bowie ganhou o apelido de “o maior camaleão do rock” por sua habilidade notável de se reinventar e ultrapassar os limites da música e da moda, nunca se misturando à multidão.

Fora do palco, Bowie era conhecido por seu comportamento audacioso, sincero e direto em entrevistas, especialmente ao falar sobre sexualidade e identidade. Isso contrastava fortemente com a mídia conservadora, que frequentemente sensacionalizava suas declarações ambíguas sobre sexualidade nos anos 1970.


Ao longo de sua carreira, Bowie desafiou corajosamente normas sociais e discutiu abertamente suas experiências com sexualidade e gênero. Ao fazer isso, quebrou estereótipos e promoveu maior aceitação e compreensão de indivíduos LGBTQ+, emergindo como um pioneiro da visibilidade e aceitação LGBTQ+.


Seu legado continua a inspirar artistas e ativistas a abraçarem sua autenticidade, a se posicionarem contra injustiças, a permanecerem politicamente engajados, e sua música mantém uma conexão transcendente com novos públicos, mesmo mais de uma década após sua morte.


Ney Matogrosso: Vira-Vira Homem, Vira-Vira Lobisomem

Apesar da negação de seus apoiadores, no Brasil, em meio à ditadura militar de 21 anos. Ela foi marcada por autoritarismo, violações de direitos humanos, perseguição política, exílio e censura, permanece um silêncio sobre esse capítulo atroz da história do país. Ele deixou muitas vítimas com danos físicos, traumas psicológicos, cicatrizes sociais, desaparecimento, tortura e morte, e alguns tiveram até suas vidas profissionais destruídas. Os responsáveis nunca foram punidos devido à Lei da Anistia.


Mesmo assim, houve um boom cultural, com a arte desempenhando papel crucial na resistência humana. A estética e o som do glam rock inspiraram artistas como Rita Lee, Raul Seixas e Ney Matogrosso, cujas identidades foram moldadas por uma fusão do gênero britânico com a Música Popular Brasileira (MPB).


Ney Matogrosso liderou a banda Secos & Molhados, desafiando normas tradicionais de gênero ao abraçar a androginia. Com uma persona de palco flamboyant e aparência distinta, marcada por figurinos elaborados, maquiagem e performances teatrais, a banda borrava as fronteiras entre masculinidade e feminilidade. Matogrosso utilizava consistentemente seu corpo como forma de expressão artística durante os shows.


As músicas frequentemente exploravam temas tabus, como sexualidade, identidade e justiça social. As letras, escritas pelo poeta e compositor João Ricardo, transmitiam mensagens de rebeldia, libertação e crítica social, ressoando com o público que buscava expressão artística e autenticidade em canções como Sangue Latino, Rosa de Hiroshima e O Vira.


Além disso, muitas músicas desafiavam a censura da ditadura militar usando metáforas e críticas veladas. Várias canções do grupo são adaptações de poemas de renomados escritores brasileiros, refletindo engajamento político. A banda também incorporava elementos da cultura popular e da contracultura em sua música.


Sua estética foi considerada por muitos uma afronta aos padrões morais da sociedade conservadora brasileira. Embora o grupo não se opusesse explicitamente ao regime militar, suas letras e performances eram interpretadas como subversivas. Ainda assim, a banda alcançou sucesso imediato.


A gravadora Continental inicialmente produziu apenas 1.500 cópias do álbum, subestimando seu potencial. Após uma apresentação impactante no programa Fantástico, da Rede Globo, a demanda disparou. Em apenas dois meses, mais de 300.000 cópias foram vendidas e, no final de 1973, o número ultrapassou 1 milhão, um marco histórico para a indústria fonográfica brasileira. Eles foram a primeira banda brasileira a se apresentar sozinha em uma grande arena, sem apoio de festivais ou outros artistas, atraindo 30.000 pessoas, número que ultrapassava a capacidade oficial, deixando milhares de fãs do lado de fora.


Como artistas assumidamente queer, os membros do Secos & Molhados tiveram papel fundamental na visibilidade e representação LGBTQ+ no Brasil. Em um período de ampla discriminação e perseguição, a banda forneceu uma plataforma para expressão queer e solidariedade, inspirando outros a abraçarem suas identidades e desafiarem normas sociais. Apesar de terem se separado em meados dos anos 1970, o legado da banda continua relevante hoje e vivo através do octagenário Ney Matogrosso. Se me perguntarem, digo que o Secos & Molhados inspirou o Kiss e com orgulho!


Homem com H, Como É

A carreira solo marcou o início da trajetória de estrelato de Ney Matogrosso, que completou 50 anos de carreira em 2025, sendo considerado pela Rolling Stone como o maior cantor latino-americano de todos os tempos. Ney Matogrosso poderia ser chamado de nosso camaleão, com ou sem sua banda.


Ao longo de sua carreira, demonstrou enorme versatilidade artística, colaborando com músicos diversos e explorando variados gêneros, estilos musicais e formatos como o seu show recente no Tiny Desk Brasil. Suas performances poderosas e estilo eclético — mesclando rock, pop, MPB e música mundial — conquistaram crítica e fãs fiéis. Sua persona é a essência do glam rock com o borogodó brasileiro, desafiando frequentemente questões de gênero. Ele também reúne o público brasileiro, que é dividido socioecoonomicamente e politicamente.


Fora do palco, sua abertura sobre experiências como artista queer fez dele um forte defensor dos direitos e da visibilidade LGBTQ+ no Brasil. Crescendo com um pai militar e homofóbico, o palco teatral se tornou seu caminho para liberdade e felicidade.


Sua história chegou às telas brasileiras com Homem com H (Esmir Filho, 2025). Sua trajetória continua altamente relevante no Brasil contemporâneo, onde, mesmo com leis a favor da comunidade LGBTQ+, a segurança pública insuficiente ainda afeta a comunidade, com a morte violenta de uma pessoa LGBTQIA+ ocorrendo a cada 34 horas.


Legado do Glam Rock

O glam rock lançou as bases para gêneros futuros como Punk e New Romanticism, que expandiram ainda mais os limites em termos de gênero, sexualidade e expressão artística. O Punk trouxe ethos cru e anti-establishment, rejeitando papéis de gênero convencionais e sexualidade tradicional, como The Clash e Sex Pistols. Já o New Romanticism misturou moda flamboyant inspirada no glam com androginia, sensualidade e autoexpressão, como George Boy.


O glam rock antecipou debates modernos sobre gênero como performance. Embora o termo tenha sido oficialmente cunhado por Judith Butler nos anos 1990, o movimento já incorporava sua teoria: ninguém nasce com um “gênero natural”; construímos o gênero por meio de nossas ações. Segundo Butler, gênero é performativo porque funciona como um papel que aprendemos a desempenhar repetidamente, através da fala, roupas e comportamento, para atender às expectativas sociais de masculinidade ou feminilidade. Em vez de ser algo que “somos” internamente, é algo que “fazemos” diariamente até parecer natural ou automático.


As décadas de 2010 e 2020 foram transformadoras para a representação não-binária na música pop, graças ao glam rock. Exemplos incluem Demi Lovato, Janelle Monáe e Sam Smith. Este é um movimento crescente na indústria do entretenimento, onde indivíduos não-binários e de gênero não conforme ganham visibilidade e reconhecimento.


Eles não apenas conquistam sucesso comercial, mas também influenciam percepções públicas sobre gênero e identidade. Sua abertura contribui para uma mudança cultural mais ampla em direção à compreensão e aceitação de diversas identidades de gênero, refletindo movimentos sociais mais amplos em prol dos direitos e representação LGBTQ+.

 
 
 

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