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Mais do que ouvir MPB, a Geração Z precisa escutar

Atualizado: há 2 dias

A Geração Z impulsiona o consumo do Spotify em 64%. Provavelmente, você se deparou com essa manchete mais de uma vez, em diferentes veículos da mídia, a partir do final de setembro de 2025. Esse é o grupo formado por pessoas nascidas entre 1997 e 2012. Mas a pergunta que faço é: quem são eles de fato?


Crescendo em um Campo de Batalha Musical

Cresci nos anos 2000 em meio a disputas constantes entre comunidades do mundo digital: Brock vs. funk, ou Brock vs. One Direction e Justin Bieber. Passei por diferentes bolhas, marcadas por um certo viralatismo cultural, mas era mais fácil encontrar fãs de Brock do que de MPB. Cresci em uma casa musicalmente eclética, onde havia uma espécie de trégua sonora; ainda assim, cada pessoa que cruzou meu caminho deixou um rastro musical ou ajudou a ressignificar meu repertório.


Ativismo da Geração Z Entre o “Mimimi” e a Mudança


A Geração Z é considerada a geração nativa do mundo digital, conectada à tecnologia, à internet e às redes sociais. É a líder do chamado “ativismo de sofá”, cujo efeito é ambivalente. Usa as mídias digitais para divulgar causas, compartilhar informações e até mesmo petições. Tornar-se porta-voz, porém, requer pesquisa e compreensão das múltiplas camadas e complexidades de cada tema — muito além do efeito manada ao apertar um botão ou do anti-efeito dominó da cultura de cancelamento. Não é à toa que foram apelidados, carinhosamente, de “geração mimimi” pelos mais velhos.


Fãs de MPB por preferência ou privilégio?

Apesar de o analfabetismo absoluto estar em níveis residuais, os jovens de 15 a 29 anos da Geração Z ainda compõem 16% dos analfabetos funcionais. A educação de qualidade continua sendo um privilégio: cerca de 1 em cada 4 jovens de até 19 anos não concluiu o Ensino Médio em 2024/2025. Há disparidades significativas entre rede pública e privada, desigualdade socioeconômica, evasão escolar e infraestrutura limitada em áreas mais pobres ou remotas.


Memorizar músicas de MPB varia muito de ouvinte para ouvinte, mas o gênero apresenta características que podem facilitar ou dificultar essa conexão. A principal barreira é a complexidade das letras, que combinam riqueza lírica, vocabulário amplo e temas abstratos. Em contraste, a cultura de massa — seja sertanejo, samba, pagode ou funk — frequentemente aborda temas do cotidiano de forma mais explícita e direta, tornando o diálogo com o público mais imediato. Isso, no entanto, não impede que esses gêneros populares também tenham letras engajadas politicamente.


A preferência musical, portanto, não é apenas uma questão de gosto: reflete a necessidade humana de se conectar, compreender e se expressar por meio de códigos linguísticos e culturais familiares. Esse fenômeno é influenciado por fatores culturais, psicológicos e cognitivos, que moldam a forma como nos relacionamos com a música.


As razões pelas quais os ídolos se repetem vão além do consumo. Parte se explica pelo vínculo afetivo que criamos com suas músicas, memórias e familiares; outra parte, pela capacidade desses artistas de transcender modismos e décadas. Não podemos ignorar, ainda, o papel da indústria do entretenimento, do marketing e de herdeiros famintos, que ajudam a manter a “vida póstuma” dessas obras, garantindo que cheguem a novas gerações por meio de novos formatos.


A Geração Z Brasileira Conectada… Mas Ainda Desigual

Números do IBGE indicam que, mesmo sendo considerada “nativa digital”, a Geração Z ainda enfrenta barreiras tecnológicas. Cerca de 5% dos adolescentes de classes sociais mais baixas e áreas remotas não têm acesso a algum aparelho, o que contribui para a exclusão digital e limita o consumo musical em plataformas de streaming, bem como o engajamento cultural online.


Em 2026, a Geração Z brasileira vive um cenário de quase universalização da infraestrutura básica: 99,8% dos domicílios contam com energia elétrica, e cerca de 93% dos jovens estão conectados à rede. Porém, por trás desses números, existe um abismo social em relação à qualidade desse acesso.


Muitos jovens de classes sociais mais baixas e de áreas remotas dependem de smartphones com planos de dados limitados, que dificultam o uso educacional e profissional. Quando não estão offline pela falta de eletricidade, o acesso pleno e produtivo à internet ainda não é uma realidade.


Dito isso, o consumo e a redescoberta da MPB entre esses jovens acontece de formas diversas: por meio de samples de RAP, reinterpretações de clássicos por novos artistas, trilhas sonoras, tendências nas redes sociais, acessibilidade digital e até o renascimento do vinil.


O Sonho É Brasileiro Mesmo?

O Brasil é um dos poucos países onde o consumo de música local é muito maior do que o de música internacional. Entretanto, o país também é vítima de exploração cultural no mercado fonográfico. A cultura brasileira moldou o cenário musical global por décadas, seja como fonte de samples ou alvo de plágio, mas muitas vezes é ignorada ou descartada em seu próprio território — a menos que esteja ligada a alguma polêmica que mobilize o povo.


O governo Bolsonaro ficou marcado como um período assombroso, com a extinção do Ministério da Cultura. Após o fim de seu governo, estamos diante de uma ascensão cultural do país, com destaque internacional crescente do cinema brasileiro em Cannes, Berlim e Los Angeles.


Porém, essa ascensão se deve à validação dos estrangeiros diante de um produto nosso que sempre esteve ali à disposição, gringos “baba-ovo” para conquistar um dos dez maiores mercados consumidores, ou é uma resposta autêntica dos brasileiros à chamada “idade das trevas” e às melhorias tecnológicas? Por mais que 73% dos brasileiros prefiram assistir a filmes dublados em vez de legendados, ainda assim 88% das escolhas continuam sendo majoritariamente blockbusters dublados.


É preciso reconhecer que mais brasileiros estão produzindo e conquistando cada vez mais acesso a bens culturais, graças aos governos de Lula e Dilma, com incentivos voltados à descentralização das políticas públicas de cultura do eixo Rio–São Paulo, ao reconhecimento e à valorização da diversidade cultural, étnica e regional brasileira. Mesmo assim, ainda existem barreiras para o acesso dentro e fora desse eixo.


O “P” de MPB: Música Popular Brasileira

A MPB não tem uma fala monolítica ou totalmente padronizada. Mesmo após 60 anos, a música popular brasileira contemporânea renova o ethos clássico da MPB, incorporando influências de indie, eletrônico, neo-soul e produção de pop moderno.


Ainda persiste a tendência de classificar como “regional” a música produzida fora do eixo Rio–São Paulo, como se fosse menor ou inferior, reforçando a ideia de que a MPB pertenceria apenas a essa região.


A Geração Z valoriza diversidade, debates e individualidade, mas muitas vezes não percebe as bolhas em que vive, que limitam sua visão de mundo. Além disso, hoje em dia, essas bolhas são alimentadas por algoritmos. Dentro do Brasil, há tantos “Brasis” coexistindo.


Nossos ídolos ainda são os mesmos


Em 2025, muitas cidades brasileiras foram palcos de manifestações contra a PEC da Blindagem e o Projeto da Anistia. Entre discursos e cartazes, vozes conhecidas ecoaram mais uma vez no Rio de Janeiro: Djavan, Ivan Lins, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola.


São artistas que, décadas atrás, desafiaram o sistema ainda jovens e que, hoje, já octogenários, continuam marcando presença em atos políticos transmitidos ao vivo. Alguns foram presos, outros exilados e alguns até torturados. Outros conseguiram manter suas carreiras sem grandes problemas com a censura.


60 anos de MPB

A MPB surgiu há cerca de 60 anos como sucessora da bossa nova e foi consolidada pela Tropicália, embora defini-la seja sempre polêmico. Em um país tão grande e plural, o gênero é um verdadeiro casamento de influências, tanto nacionais quanto internacionais.


A Tropicália representou uma nova abordagem da música popular, incorporando samba, bossa nova, outros gêneros da América do Sul e elementos culturais locais, com toques de psicodelia. Suas letras, repletas de ironia, sátira e metáforas, muitas vezes utilizavam a ambiguidade para subverter a censura e tratar de temas polêmicos, contribuindo para a formação de consciência política entre os jovens de classe média alta e urbana, funcionando como uma forma velada de resistência à ditadura.


Há 40 anos, o Brasil saiu de um regime marcado por autoritarismo, violações de direitos humanos, perseguição política, exílio e censura. Esse período deixou inúmeras vítimas, com danos físicos, traumas psicológicos, cicatrizes sociais, desaparecimentos, tortura, morte e até mesmo difamação profissional. Os responsáveis por esses crimes jamais foram punidos.


Ru(s)gas da MPB

Com a Lei da Anistia de 1979, o Estado protegeu os torturadores da responsabilização judicial e perdoou crimes cometidos tanto pelo regime militar quanto por seus opositores entre 1961 e 1979. Décadas depois, acontecimentos recentes mostram que essas cicatrizes não desapareceram.

Em 8 de janeiro de 2023, apoiadores do ex-presidente, o mesmo grupo que clama um retorno à ditadura (e a rejeita com esse nome), invadiram prédios do governo federal.


Em 2025, protestos massivos levaram à rejeição de um projeto de lei que buscava dificultar investigações de membros do Congresso.


As aparências não enganam

Apreciar a MPB, ainda mais em 2026, ano de eleição presidencial, exige muito mais do que um fone de ouvido de qualidade. Se a Geração Z quer, de fato, herdar esse legado, precisa entender que cada melodia carrega o peso de uma cicatriz político-social. É muito mais do que uma trend passageira em uma rolagem de feed. Então, a Geração Z impulsiona o consumo do Spotify em 64%?

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