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  • Stranger Things é a última série que o mundo assistiu junto?

    Será que Stranger Things  pode ter sido a última série que o mundo realmente assistiu em conjunto? O Volume 1 da 5ª temporada tornou-se o título mais assistido da Netflix em 91 de 93 países até o final de 2025, provando que, mesmo em uma era de feeds fragmentados, a atenção coletiva ainda é possível, ainda que apenas por um momento. Stranger Things foi o último momento cultural verdadeiramente compartilhado? Stranger Things  talvez seja a última vez em que todos os olhares se fixaram na mesma tela dominante. Muitos defendem que estamos presenciando a morte dos fenômenos culturais coletivos, à medida que a internet e os algoritmos nos filtram para bolhas altamente individualizadas. Some-se a isso o ritmo implacável da produção de conteúdo, e passamos a viver em um mundo de microculturas mainstream fugazes e meteóricas, renovadas a cada rolagem. Offline, vivemos em um mundo polarizado, dividido social, política e geograficamente. E nem me fale da data de lançamento da última temporada, caindo justamente na época de festas de final de ano, quando nos reunimos com nossos entes queridos para celebrar o ano que passou. Como Stranger Things cativou o mundo? Há muitos fatores por trás do sucesso de Stranger Things . Do amplo marketing offline e do merchandising a um elenco carismático e cativante, a série também prospera graças às suas referências à cultura pop e às experiências identificáveis do gênero coming-of-age, com personagens diversos, complexos e dinâmicas de grupo bem definidas. Como um dos primeiros grandes sucessos da Netflix, Stranger Things  tornou-se a galinha dos ovos de ouro da plataforma, especialmente em uma era de conteúdos consumidos sem esforço e rapidamente esquecidos. O lançamento em múltiplos volumes permite que o público se envolva profundamente com a narrativa, alimente comunidades online com teorias e mantenha um interesse prolongado. Quando os anos 1980 imaginaram os anos 2020 — e o futuro passou a desejar o passado Stranger Things  se apoia fortemente na nostalgia. Em uma sociedade marcada por angústia, crises e rápidas transformações tecnológicas, esse tipo de conteúdo oferece conforto em meio a um mar de opções e ao scrolling infinito. O público se volta para títulos familiares porque eles prometem previsibilidade em um mundo cada vez mais caótico, oferecendo segurança, familiaridade e uma memória cultural compartilhada — especialmente quando associados a experiências positivas do passado. Embora a nostalgia não dialogue com todos os grupos demográficos, a anemoia certamente o faz. Muitos jovens recorrem a gerações mais antigas para explorar estilos de vida ou atividades analógicas, transformando-as em hobbies. Isso vai desde o uso de celulares simples até crochê, tricô, cerâmica, bordado, pintura e desenho, além da criação de diários, scrapbooks e de um fascínio pelo vinil. Essas práticas há muito funcionam como uma forma de detox digital que, ao mesmo tempo, impulsiona tendências e resgata tradições esquecidas. Trata-se de uma rebelião sutil contra a estética “clean”, hiperpolida e aprovada por algoritmos que domina as redes sociais. Em um mundo onde todos são incentivados a parecer iguais por meio de filtros e pressões estéticas crescentes, abraçar a cultura analógica torna-se uma afirmação de individualidade. Stranger Things  desperta nostalgia e anemoia no coração do público, mas os próprios anos 1980 foram definidos por blockbusters de ficção científica futurísticos leves. Fortemente influenciados pelo sucesso de Star Wars  em 1977 e movidos pelo desejo de experimentar imagens geradas por computador, esses filmes refletiam não apenas o fascínio tecnológico, mas também as ansiedades da Guerra Fria e os medos distópicos. Em 2025, o futuro imaginado nos anos 1980 com carros voadores e engenhocas tecnológicas permanece, em grande parte, irrealizado. Em vez disso, lidamos com a realidade de ciborgues, inteligência artificial e mudanças tecnológicas aceleradas. Para muitos, a incerteza em relação ao futuro impulsiona uma fuga para visões nostálgicas e idealizadas do passado. Stranger Things: a linha tênue entre nostalgia e ansiedade Nesse sentido, Stranger Things  atua como um ventríloquo dos anos 1980, usando seus monstros e narrativas para explorar preocupações contemporâneas, de metáforas sobre a crise global de saúde mental a temas universais de amadurecimento. O que a nossa obsessão pela nostalgia revela sobre a nossa capacidade de enfrentar os desafios de um mundo em rápida transformação? Embora a nostalgia possa confortar o público, ela também pode nos distrair de pressões políticas e sociais urgentes, potencialmente nos fazendo dar um passo para trás. Nos próximos anos, lembraremos de Stranger Things  como a última vez em que o mundo realmente parou junto sem as barreiras do cotidiano — ou como um momento em que a nostalgia nos anestesiou, levando-nos a glorificar as absurdidades repetidas do passado em uma cultura de mídia efêmera e intangível?

  • O Que a Bilheteria de 2025 Diz Sobre o Brasil

    Então, ainda não é Natal. Entre entretenimento e hipervigilância, gostando ou não, chegou a hora da retrospectiva da bilheteria. A preferência do público brasileiro ainda se inclina fortemente para grandes produções estadunidenses, especialmente sequências de franquias conhecidas como Lilo & Stitch, Como Treinar o Seu Dragão, Rei Leão, Capitão América, Superman, Quarteto Fantástico e Jurassic World. Mas o cinema brasileiro também marcou presença: levou 8,3 milhões de espectadores, com crescimento de 11,2% na participação de mercado e aumento de 197% nas vendas de ingressos em comparação com o período anterior. Conforto na mesmice: Como o cinema acalma em tempos caóticos Para nós, brasileiros, a saudade no cinema é uma faca de dois gumes. Em uma sociedade marcada por desigualdade, crises e mudanças tecnológicas rápidas, esse tipo de conteúdo conforta o público em um verdadeiro “vertical de oportunidades”: rolagem infinita em plataformas online e múltiplos serviços de streaming caros. As pessoas buscam títulos familiares porque eles prometem previsibilidade em um mundo cada vez mais caótico, oferecendo conforto e uma memória cultural compartilhada. Elas também tendem a gastar dinheiro onde reconhecem e confiam na marca, especialmente se têm lembranças positivas associadas a ela. Para os estúdios, no entanto, a saudade é conteúdo de baixo risco, explorado de maneira obsessiva. Franquias, remakes, reboots, prequels e spin-offs são apenas a ponta do iceberg. Por trás disso, há uma expansão multicanal: marketing eficiente, merchandising, adaptações de propriedades intelectuais e releituras contemporâneas de universos narrativos familiares. No fundo, estúdios e plataformas de streaming travam um conflito diário, cada um disputando a galinha dos ovos de ouro: a atenção do público. Saudade do que não vivemos Talvez essa saudade não seja compartilhada por todos. Muitos jovens têm recorrido às gerações mais velhas em busca de estilos de vida ou atividades analógicas, transformando-os em hobbies. São práticas que sempre existiram como uma forma de escapar do universo digital — um tipo de detox que, ao mesmo tempo, estabelece tendências por meio desses ressurgimentos culturais. É uma rebelião sutil contra o visual hiperpolido e aprovado por algoritmos que domina as redes sociais. Em um mundo onde todos são incentivados a se parecer através de filtros e pressões estéticas crescentes, abraçar a cultura analógica se torna uma forma de afirmar a própria individualidade. Essa saudade também é um recorte do imaginário coletivo, uma faceta do passado compartilhada independentemente das barreiras geográficas. Ainda assim, não deixa de ser uma anemoia: afinal, apenas 10% dos brasileiros têm passaporte, viajar para o exterior ainda é um privilégio de poucos, muitas vezes devido a questões financeiras e logísticas . Cinema estrangeiro morreu de saudade, o nacional renasceu Na gringa, alguns críticos definem essa saudade como uma reciclagem de conteúdo, chegando a considerá-la a morte do cinema original. O espírito criativo ainda persiste, mas tornou-se vítima do “Pac-Man corporativo” dos estúdios e do capitalismo selvagem. O foco em STEM e inteligência artificial adiciona ainda mais pressão ao setor. No entanto, o cinema nacional presencia a sua época de ouro, talvez graças à combinação de incentivos, destaque em premiações internacionais e avanços tecnológicos. Cinema brasileiro cresceu ou apenas sobreviveu sob aparelhos? A bilheteria nacional de 2025 incluiu filmes como Auto da Compadecida 2 , Ainda Estou Aqui , Chico Bento e a Goiabeira Maravilhosa , Vitória , Homem com H , Perrengue Fashion , Fé Para o Impossível , O Último Azul  e CIC – Central de Inteligência Cearense . O governo Bolsonaro ficou marcado por um período conturbado, incluindo mais uma extinção do Ministério da Cultura. Após o fim de seu governo, testemunhamos uma ascensão cultural do país, com crescente destaque internacional do cinema brasileiro em festivais como Cannes, Berlim e Los Angeles. Mas a pergunta persiste: essa visibilidade global é fruto de validação estrangeira de um produto nacional, uma tendência passageira ao estilo “modo leite”, ou representa uma resposta genuína à chamada “idade das trevas”? Ainda existe preconceito e desrespeito em relação aos 229 anos de história audiovisual do Brasil. Curiosamente, grande parte do público descobre a própria cultura por recortes nas redes sociais. Nossas histórias sempre estiveram presentes, embora muitas vezes em momentos de qualidade técnica questionável, perdidas em incêndios, descuidados de governos subsequentes e outros danos ao patrimônio histórico. O que a bilheteria nos revela sobre o Brasil? Foram três os temas dominantes: drama, comédia e saudade. A comédia aparece em menor quantidade, mas continua sendo o nosso carro-chefe, resultado de anos de tradição cinematográfica. Apesar de alvo de muito desprezo, ela é uma forma de compreender o povo: nosso modo otimista, a criatividade e a capacidade de transformar limão em caipirinha. É a nossa válvula de escape diante das durezas da vida, uma expressão de resistência que se reinventa de diferentes maneiras. Neste ano, porém, também houve espaço para uma mistura de drama com saudade. O passado é amargo e salgado, repleto de absurdos gloriosos. Ao contrário de outros países, onde o passado costuma ser retratado em tons idílicos ou (agri)doces, no audiovisual brasileiro ele foi muitas vezes esquecido, lembrado apenas em propagandas políticas como estratégia de manipulação. Somos um povo de memória curta, mas hoje buscamos compreender a cara do nosso país, tão diverso e cheio de camadas. É um legado do Cinema Novo dos anos 60, o país e os marginalizados vistos sob um olhar crítico e aguçado. Fenômenos intergeracionais sensíveis, como os live-actions de Maurício de Sousa, nos conectam acima das barreiras que historicamente nos dividem., mas com a nossa infância coletiva como nação. O cinema brasileiro é um cinema de todos? Esse preconceito tem dois pais divorciados. De um lado, a dublagem brasileira, historicamente prestigiada e responsável por tornar o audiovisual acessível ao grande público — afinal, 95% da população fala apenas português, e a dublagem é a escolha natural para muitos. Do outro lado, a legenda, símbolo de uma bolha resistente e de certa aporofobia que domina a classe média. A educação bilíngue, no Brasil, permanece um privilégio de classe. O provérbio italiano “Traduttore, traditore”  — “tradutor, traidor” — lembra que todo tradutor precisa fazer concessões ao transportar uma obra de uma língua para outra, inevitavelmente alterando nuances, contexto e intenções. Em alguns países, isso se reflete em títulos estrangeiros adaptados de forma exagerada ou caricata, justamente para fortalecer a identidade cinematográfica local. No Brasil, porém, o cenário se inverte: o tradutor pode ser o camarada, até (lucra)criativo, adaptando títulos e diálogos não para afirmar identidade nacional, mas para tornar o produto mais vendável, mais palatável ou simplesmente mais chamativo ao público local. Assim, desenvolve-se a saudade do que não vivemos — um medo de ficar de fora. Fomos ensinados a valorizar o exterior, e essa mentalidade se propaga a cada geração. O cinema brasileiro é realmente para todos? Para além desses pré-conceitos e tipos de saudade, há uma questão cultural mais profunda. O jovem brasileiro que se descobre cinéfilo convive com a realidade de que, na raiz, somos um povo noveleiro. Talvez por hábito geracional, talvez pelos preços altos do streaming ou pelo acesso limitado à cultura e seus infinitos combos. Muitos filmes nacionais ainda tropeçam narrativamente ao tentar competir com essa estrutura enraizada. Embora o acesso à cultura seja um direito humano, a realidade brasileira revela que ele é, na prática, um privilégio para poucos, limitado pela desigualdade de renda, pela falta de infraestrutura e por barreiras históricas e geográficas. Ao contrário da Índia, onde o cinema comercial é pensado para estar junto, nos pilares da população e dos gostos demográficos, o famoso Masala, aqui é preciso cuidado com o “tempero”, pois podem ser sutis formas de controle. O Brasil frequentemente aparece entre os cinco primeiros países no ranking global de acessos a sites de pirataria. A pirataria, por mais condenada que seja, evidencia que grande parte da população ainda encontra o audiovisual inacessível, resultado direto dessas barreiras econômicas e territoriais. E, afinal, época de ouro para quem? Walter Salles, por exemplo, integra uma das famílias mais ricas do país, herdeiras do Banco Itaú Unibanco. Fora do eixo Rio–São Paulo, a realidade é outra: precariedade para os trabalhadores do audiovisual, falta de infraestrutura, oportunidades limitadas, jornadas exaustivas e informalidade, com poucas políticas de cotas ou editais que ofereçam algum alívio. Gosto salgado de saudade Outro fenômeno que acompanhei vem da cidade onde nasci e cresci: Niterói, pano de fundo que se tornou quase personagem na famosa, querida e lucrativa franquia de Paulo Gustavo. Ao longo desses 25 anos de indústria vital, me despedi de inúmeros espaços culturais gentrificados; memórias antes vivas foram sendo cimentadas. Lembro da videolocadora na rua de cima, essencial nos meus finais de semana, férias ou feriados não viajados. Depois, vieram a extinção dos cinemas de rua e o efeito dominó do fechamento das salas em shoppings. Já adulta, descobri que, no quintal de casa, literalmente existia um cinema frequentado pela juventude das minhas avós. Hoje, restam apenas quatro salas no coração da cidade, além da promessa eterna de reabrir o antigo cinema de rua — promessa que já virou piada local. Esses espaços eram muito mais do que cultura: eram comunidade. Primeiros encontros, rolês com amigos, memórias construídas em família. Estudantes tentando compreender o mundo ao redor, usufruindo do desconto na entrada. Trabalhadores buscando escapismo. A ausência desses locais é sentida no cotidiano, até mesmo no aumento da criminalidade, que nasce, em parte, de um vazio cultural. No fim de novembro, foi inaugurado o Centro Cultural Cauby Peixoto, no Fonseca. Um respiro tímido, mas necessário. É hora de deixar a saudade para trás? Apesar de toda essa negligência, temos as ferramentas para “democratizar” o conteúdo — a um toque de distância de construir nossas próprias plataformas e testar nossa sorte contra os algoritmos que nos dividem online. E vale lembrar: mais de 11% dos brasileiros ainda não têm acesso a um smartphone pessoal, enquanto menos de 0,5% vive sem eletricidade. A cultura sempre encontra uma forma de crescer e resistir ao elitismo. Chega de saudade. A realidade é que, se 2025 foi o ano da nostalgia no cinema, talvez 2026 seja o ano em que finalmente teremos coragem de perguntar: quais histórias ainda não foram contadas? Brasil, mostra a sua cara!

  • Negligência Geracional em Dominó e a Geração Digital das Cavernas

    2025 foi um dos anos em que vivemos uma negligência geracional em efeito dominó, marcada pelo cancelamento de canais de televisão e programas voltados ao público jovem, tanto na TV a cabo quanto na aberta. Entre eles, destacam-se TV Globinho (2015), Malhação (2021), Cartoon Network (2022), Disney Channel (2025), além de MTV e Nickelodeon (2026). Um minuto de silêncio para o Bom Dia Companhia que ainda (re)existe. O mesmo ocorreu com revistas que encerraram sua circulação impressa: Superinteressante (2011), Toda Teen (2012), Capricho (2015), Atrevidinha (2016) e Recreio (2021). Todos tinham a mesma galinha de ovos de ouro: os jovens. A maior parte perdeu público para a outra tela, a internet, e enfrentou dificuldades financeiras para manter seu status de porta-voz da juventude e a conexão com esse público. Diante dessa ausência, estamos entregando pérolas aos porcos de mão beijada ou recriando as cavernas do período Paleolítico? Geração digital: hiperconectada, desconectada dos arredores É inegável o quanto as telas estão presentes em nossas vidas, assim como as notificações contínuas que nos paralisam, ambas alimentam o vício em deslizar, o medo de ficar de fora e a hiperinformação. Muitos estudos já analisam os efeitos colaterais desses hábitos no cérebro humano, e pais e escolas frequentemente restringem de acordo com a idade ou proíbem as telas. Ainda assim, a faixa etária de 15 a 24 anos apresenta a maior taxa de uso da internet em todo o mundo. As telas crescem diante deles, eclipsando seus rostos e escurecendo as janelas pelas quais a realidade antes entrava. Ainda me lembro da minha infância nesse período de transição para esse digital. Na casa de veraneio da família, eu tinha muito mais liberdade do que no apartamento em que morava. Assim que aprendi a andar de bicicleta, ela se tornou minha fiel escudeira durante as férias. O condomínio era cheio de crianças, cada uma imersa em seu próprio universo imaginário de brincadeiras. Nas raras vezes em que voltei na adolescência, o mesmo lugar parecia esvaziar-se cada vez mais dessas crianças. Internet: meio de comunicação ou caverna digital?   Por natureza, independentemente da geração, o adolescente é frequentemente considerado antisocial. No entanto, trata-se de uma fase delicada, marcada por descobertas que exigem acolhimento e paciência. Muitos jovens se recusam a se comunicar com os pais ou com outros membros da família. Tive a sorte de ter sido uma criança pré-adolescente na época de ouro desses canais, absorvendo os valores transmitidos pelos seriados adolescentes do Disney Channel, Nickelodeon e Malhação: estilos de vida desejáveis, leveza no conteúdo e a nostalgia de sentar no sofá da brinquedoteca com minha irmã caçula. Também tive o privilégio de crescer com uma mãe geminiana que compartilhava comigo seus próprios canais de comunicação e fontes de informação da adolescência, sendo essas revistas. Todo mês era garantia nas bancas, me lembro de pôsteres, testes e folheando pelas matérias. Esses cancelamentos em efeito dominó rompem essas possíveis tentativas de criar diálogos e conexões entre pais e filhos ou dos meios de comunicação possíveis, os deixando à deriva da internet. Anemoia: a saudade do que esta geração nunca viveu Um sentimento comum entre os adolescentes da atualidade é a anemoia. Muitos recorrem a atividades e hobbies analógicos, que sempre existiram como uma forma de escapar do universo digital, ao mesmo tempo em que ditam tendências com essas ressurgências culturais. Essa busca por um detox digital inclui desde o uso de dumbphones, crochê, tricô, cerâmica, modelagem, bordado, pintura e desenho, até a criação de diários, álbuns de recortes e o consumo de vinil. Inteligência Artificial: oráculo ou cárcere da geração digital das cavernas? Um fenômeno que esta geração está presenciando é a dominância assustadora da inteligência artificial, presente em todos os lugares e disponível a um clique, em debate a restrição de idade. O impacto sobre os jovens é preocupante e se manifesta de várias formas: como fonte de manipulação de informações por meio de vídeos, como vínculo tóxico que funciona quase como um oráculo para suas questões adolescentes, incluindo casos graves em que as inteligências artificiais arquitetaram suicídios, como cola para os deveres escolares e como ferramenta limitante de pesquisa e trabalhos escolares. Além disso, há uma tendência crescente de jovens buscando apoio emocional e interação social em plataformas de IA, substituindo relações humanas de amizade ou românticas. Isso sem mencionar a perda de habilidades básicas, a preguiça cognitiva, a superficialidade no conhecimento e o compartilhamento excessivo de dados. É a era da desconexão na hiperconexão. Neste ano, também se discutiu a adultização e a exploração de crianças nas redes sociais, um cenário marcado pela falta de regulamentação e a internet sendo um verdadeiro Velho Oeste. Ao mesmo tempo, adolescentes são seduzidos pelo palco das redes sociais, onde a profissão de influenciador transforma vidas em espetáculo, antecipando responsabilidades adultas e expondo vulnerabilidades em público. Muitas vezes, ainda vendem um estilo de vida coberto de mentiras: uma falsa ideia de facilidade, suposta sorte, ignorando barreiras reais e os algoritmos que direcionam os conteúdos. Geração que cresceu diante da pandemia Um fator pouco mencionado é que muitos desses jovens cresceram durante as restrições da pandemia de 2020. As redes sociais passaram a funcionar como seu mundo problemático primário, onde grande parte das suas aulas e interações sociais ocorreram. Isso me remete ao mito da caverna de Platão, em que a percepção da realidade é mediada por sombras e máscaras, ou, hoje, pelas telas. Vulnerabilidade e qualidade de vida: há um paradoxo? Do outro lado dessa questão, pelo menos 25% dos jovens com menos de 25 anos no mundo não têm acesso a infraestrutura básica, como internet e eletricidade. Esses jovens desfrutam de maior qualidade de sono, melhor otimização do tempo, menos sobrecarga de informação e menor pressão social e comparação. No entanto, que atire a primeira pedra quem nunca percebeu que, muitas vezes, dinheiro abre caminhos para a felicidade e essa falta de acesso pode ser prejudicial em vários graus. Novelas verticais são a solução da geração das cavernas? Ontem, 25 de novembro, a Rede Globo lançou sua mais nova aposta, com outras estreias previstas para 2026: as novelas verticais. É importante destacar que esse formato não é uma novidade; as classes populares já consomem esse tipo de conteúdo desde 2022 no Kwai, com bilhões de usuários fora dos grandes centros, especialmente nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Após anos medindo o sucesso de suas novelas apenas pelos pontos na televisão, ignorando o engajamento online e os números de streaming, e enfrentando tentativas falhas de remakes e concorrência de gigantes do streaming, a Rede Globo finalmente deu atenção à internet e à tendência dos microdramas surgida durante a pandemia na China. Talvez essa seja uma tentativa de se comunicar com a chamada geração digital das cavernas. Mas será que conseguirão prender a atenção desse público em segundos? Muito menos superar o mar de algoritmos necessário para alcançar esses jovens. Sem falar nos desafios criativos, como a construção de uma lógica narrativa envolvente e a criação de conexões reais com o espectador. Vale lembrar que a Rede Globo continua sendo um dos canais de televisão mais consumidos pelos idosos brasileiros, que ainda representam um público-chave e de grande relevância para a emissora. Apesar de sua presença quase onipresente nos lares e espaços públicos, a audiência do canal está claramente envelhecendo. Novos meios, velhos temores: os pânicos morais Pânicos morais sempre fizeram parte das gerações. Qualquer novo meio de comunicação ou expressão cultural tende a ser demonizado pelos conservadores e religiosos como um “demônio popular”. Nos anos 40 e 50, foram as revistas em quadrinhos; nos anos 60, o rock 'n' roll; nas décadas de 70 e 90, telenovelas mais complexas e carregadas de tabus; e, nos anos 90 e 2000, os videogames. Músicas (MPB, rock), peças de teatro e filmes também foram censurados durante o regime militar, sendo vistos como subversivos ou ameaças à moral e aos bons costumes. Mas seriam as novelas verticais a solução para engajar os jovens? Elas não evitam o uso excessivo, passivo ou problemático da tecnologia e não substituem a higiene digital ou o uso consciente e intencional das telas. Além de contribuir para o fênomeno de simulacra, aonde a simulação substitui a realidade e a copia fica mais real que original, que talvez não exista mais. Ao mesmo tempo, perpetuam um ciclo vicioso: adolescentes permanecem escondidos atrás das telas, absorvendo as migalhas de informação recortada e sem dar um pio, enquanto o capitalismo continua em caça do consumidor, guiado pela lei da oferta e da procura. E se a geração digital das cavernas permanece escondida atrás das telas, estamos realmente conectando com o mundo ou apenas vivendo sombras de uma realidade simulada?

  • Cavern Club São Paulo É Um Museu de Grandes Novidades

    No último sábado, dia 15 de novembro, o Shopping Vila Olímpia (São Paulo) abriu as portas para o primeiro Cavern Club fora da Inglaterra. Alguns chamaram de réplica; outros, de uma recriação da atmosfera histórica e da experiência do pub britânico para o público brasileiro. Entretanto, cá entre nós, há uma incoerência. O que foi o Cavern Club? O Cavern Club ficou conhecido internacionalmente como o berço de uma das bandas mais influentes de sua geração e da contracultura: os Beatles, nos anos 60. Porém, a história do lugar começa um pouco antes, como um clube de jazz criado em 1957 por Alan Sytner. Dois anos depois, o Cavern Club estava sob o comando de Ray McFall, que incentivou a música skiffle e as sessões na hora do almoço. Ambas foram um prato cheio para os jovens trabalhadores, que assistiam aos grupos enquanto almoçavam. Nessas sessões apareceram alguns artistas que já tinham fama no próprio Reino Unido, como Gerry & the Pacemakers, The Searchers, The Hollies, Billy J. Kramer e Cilla Black. Além disso, também se apresentaram alguns nomes que se tornariam famosos durante a Invasão Britânica, incluindo os quatro jovens de Liverpool que, entre 1961 e 1963, tocaram 292 vezes no Cavern Club antes de começarem a carreira internacional. Com isso, o Cavern Club ganhou seu próprio hall da fama: um mural de tijolos com todos os nomes diversos de quem já passou por lá. Além de estátuas de John Lennon e Cilla Black . Cavern Club São Paulo Em 2025, o Cavern Club ganhou sua primeira filial em São Paulo. Nessas primeiras semanas, a agenda tem estado lotada, repleta de nomes do cenário do rock nacional e algumas bandas tributo. A inauguração contou com Paulo Ricardo no dia 15 de novembro, seguida por Titãs no dia 20, Léo Jaime no dia 21. Dado Villa-Lobos no dia 6 de dezembro, Virginie Boutaud no dia 13, Beto Guedes no dia 19 e Blitz no dia 30 de janeiro de 2026. A decoração conta com um hall da fama, mesas e memorabilia do universo do rock, oferecendo uma oportunidade acessível aos brasileiros fãs apaixonados que não tiveram a chance de conhecer o original. Ao mesmo tempo, o espaço promete trazer ainda mais movimento para São Paulo. Cavern Club São Paulo É Um Museu de Grandes Novidades Existe uma linha tênue entre homenagear um local histórico e puxar o saco. O hall da fama já começa ocupado com os nomes de quem tocou no Cavern Club original, assim como a memorabilia dominada pelos Beatles. Há quem chame o espaço de museu do rock; outros, de templo da música. Segundo um dado do Spotify de 2023, o rock é o terceiro gênero mais consumido no Brasil na plataforma, ficando apenas atrás de sertanejo e gospel. Nos dois anos seguintes, o gênero perdeu destaque, e em 2025 perdeu para pagode, funk e trap . O governo Bolsonaro ficou marcado como um período assombroso, com a extinção do Ministério da Cultura. Após o fim de seu governo, estamos diante de uma ascensão cultural do país, com destaque internacional crescente do cinema brasileiro em Cannes, Berlim e Los Angeles. Porém, essa ascensão se deve à validação dos estrangeiros diante de um produto nosso ou é uma resposta autêntica à idade das trevas? É preciso reconhecer que mais brasileiros estão produzindo e conquistando cada vez mais acesso a bens culturais, graças aos governos de Lula e Dilma, com incentivos voltados à descentralização das políticas públicas de cultura, ao reconhecimento e à valorização da diversidade cultural, étnica e regional brasileira. Mesmo assim, é necessário ressaltar que ainda existem barreiras para o acesso, mesmo no eixo prestigiado Rio–São Paulo, sem falar nas realidades fora dessa bolha. Talvez o Cavern Club seja mesmo um museu, mas de critério seletivo. Para fazer parte da História, é preciso ser estrangeiro e branco, preferencialmente homem com aces$o e privilégios. Brasileiro: povo fiel ou baixa autoestima cultural? O Brasil sempre foi um povo que bebeu das fontes estrangeiras para criar o próprio; isso faz parte do nosso DNA há anos. Musicalmente falando, o fenômeno começou entre os anos 50 e 60, com Europa e Estados Unidos. Inicialmente, surgiu a Marcha Contra a Guitarra Elétrica, em defesa da música nacional contra a “invasão estrangeira”. Porém, ela não conseguiu impedir a colonização cultural que se estenderia por gerações. Atrevo-me a dizer que tudo começou na Segunda Guerra, com a política da Boa Vizinhança. No final da guerra, os Estados Unidos empurraram a América Latina para debaixo do tapete, mas a recíproca não foi verdadeira. Ainda mais com o declínio da Europa no conflito, a narrativa do “sonho americano” ecoou por todos os meios de comunicação do continente. Nos anos 50, começou de maneira inofensiva, com a Jovem Guarda e o rockabilly brasileiro, que utilizavam músicas de sucesso estrangeiras e as adaptavam para o público jovem brasileiro. Isso moldou toda uma geração em termos de moda, expressão por meio da gíria e influências musicais nas décadas seguintes. Os artistas posteriores foram profundamente influenciados por essa colonização cultural. Beberam da fonte do Cavern Club — seja escrevendo suas próprias letras, moldando sua identidade visual ou adaptando o estilo para o público brasileiro. Eles desafiaram as autoridades de um regime militar de extrema direita. Outros influenciaram uma geração de jovens da ditadura, dando voz às suas ansiedades e correndo riscos. Muitos criaram canais de comunicação para aqueles que antes não tinham acesso devido a barreiras socioeconômicas. O povo brasileiro que escuta rock é descrito como fiel, talvez pela popularidade dos eventos que o envolvem. Mas até que ponto isso não é também resultado de uma colonização cultural, que nos ensinou a não valorizar plenamente a própria cultura, reforçando um certo elitismo cultural? Quem Entra para a História do Cavern Club São Paulo? Ainda temos memórias vividas — e algumas vezes seletivas — de gerações que estão lentamente à deriva. Além disso, existem histórias subterrâneas que foram e ainda são ofuscadas e reprimidas, com pouca visibilidade e conhecimento. Sem nem mencionar as histórias conhecidas em escala local em São Paulo, como Angra, Titãs, Rita Lee e Cindy Campello. Ademais, temos em nossas mãos um acervo cultural rico e diverso em nossos 8,51 milhões de km². Do outro lado, vemos uma restauração questionável, conduzida por políticas e administrações duvidosas, sem supervisão e com incidentes recorrentes. Muitos artistas privilegiados ainda recorrem ao exterior em busca de maior destaque ou acesso a materiais de qualidade — e tudo isso, muitas vezes, acaba se perdendo. O artista brasileiro no Cavern Club São Paulo parece feito para ser fantoche: atrair público, movimentar capital e, no máximo, ver seu nome em uma parede de tijolos. No palco do Cavern Club São Paulo, o requisito é já ter uma base garantida, e não a busca por novas vozes ou oportunidades, muito menos uma reparação histórica ampla. Cultura não se perde com facilidade e se recria, mas precisam ser cultivadas para não apodrecer. Seria o Cavern Club São Paulo uma tentativa de reviver o Hard Rock Café Tjuca? Aberto nos anos 2000, o espaço fechou precocemente em 2011 por questões financeiras e operacionais, agravadas pela concorrência, deixando memórias com Pain of Salvation, algumas bandas cover e poucos grandes nomes do rock, nacional ou internacional, tocando regularmente no local. Há quem diga que o rock morreu. Mas por que não olhamos para o nosso lado ocidental?

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